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quarta-feira, 3 de março de 2010

A fotografia


A máquina fotográfica estava sobre a mesa. “Por que logo à penumbra? Perguntou-se”. Tudo ao redor estava em profundo silêncio, como se uma letargia tomasse conta da atmosfera. Nada poderia querer ser visto, tampouco, fotografado. Sobre a poltrona de leitura estava ele, carregando sobre si o cansaço de mais um dia. Sua vontade era de se entregar ao sono, mas os olhos insistiam na contemplação da quase escuridão, das silhuetas das coisas, da visão turva do espaço. Lembrou-se da infância, de momentos que só estavam em sua memória por pura nostalgia. Veio à mente aquela viagem, quando antes do alvorecer, seguiam de carro ele e a família no mais absoluto ermo. Recordava-se da música que tocava na rádio feita para acariciar os ouvidos e acalmar a alma, do cheiro do mato ainda molhado pelo sereno, e da ausência amada que preenchia tudo. Queria trazer aquele instante ao presente, segurá-lo sem deixar escapar. Porém, dele só guardava fugidia lembrança. Para ser bem honesto, às vezes temia que parte daquele pensamento se confundisse com algum sonho que tivera no passado muito mais do que se relacionasse com o que de fato se passou.

Nos últimos anos, investira grande parte da sua renda em seu passatempo favorito: fotografia. Sua máquina era uma verdadeira captadora do mundo. Era tão precisa que dava a impressão de se comunicar com o fotógrafo, ressaltando objetos desejados e desfocando os demais, colorindo alvos de acordo com o tom pedido para a circunstância. Cada foto era uma espécie de obra, um olhar proposital e, por isso, congelado. Ao olhar a máquina mais uma vez, perguntou-se: “O que são as coisas? Elas nem sabem que estou aqui, não são parte de mim nem eu delas, por que eu as desejo, por que eu as tenho?” Era estranho que mesmo sabendo que tudo ao redor era inanimado, nada deixasse de insistir em interpelá-lo. “Desgraça de solidão que nunca me deixa só!” Murmurou.

Quanto mais escurecia, mais era possível ouvir uma voz que vinha do fundo das coisas. Recostado à poltrona, não conseguiu evitar notar as fotografias dispostas pela parede na qual o ocre se acinzentava com a proximidade da noite. Havia três fotos emolduradas em madeira escura, uma espécie de tabaco. Numa delas, ao centro, havia uma bela jovem vestindo uma capa de chuva. A monocromia da imagem impedia de definir a cor dos cabelos, do elegante xale, do resto. Percebia-se que a fotografia fora tirada da interior de um café, pois se via o escorrer dos pingos de chuva pela vidraça e a placa que ela sustentava onde estava inscrito algo como “Café Noir”.

Aquele instante emoldurado falava mais do que se poderia imaginar. Eram as últimas gotas de chuva de uma tarde de primavera. O piso da calçada e os paralelepípedos da rua ainda estavam molhados, conservando algumas poças d’água e uma fina enxurrada que escorria até os bueiros. Não estava frio, mas uma brisa fresca de ar úmido penetrava pelas portas e frestas das janelas. Dentro da cafeteria, como sempre, estava ele sozinho numa mesa para quatro. O cheiro do capuchino e das massas se confundia com o perfume que a brisa trazia, dando-lhe uma sensação de conforto que era confirmada pelos tons pastéis da decoração do lugar. Como de costume, a máquina fotográfica permanecia imóvel sobre a mesa. Subitamente, sua atenção deixou as conversas e sorrisos dos demais clientes e se pôs em direção à moça que passava do outro lado da vidraça. Dava sinais de calma ingenuidade e total descompromisso afetivo. Aquela cena o fez desejar desistir de sua vida solitária em prol de um amor por aquela senhorita; ponderou um tempo sobre isso. No entanto, suas supostas convicções o impediram de levantar e ir aonde ela esta. De repente, ela olhou em sua direção. Foi quando ele pegou a máquina, destampou a objetiva, apontou o canhão e acionou o obturador: o exato instante estava capturado. “Era melhor que fosse assim”, pensou, “a maneira como lidamos com eventos que parecem cruciais determinam irrevogavelmente suas consequências”. Para ele bastava aquele olhar, inalterado num quadro em sua parede.

Ainda imerso em devaneios causados pela visão da fotografia, não se conteve, passando a refletir sobre o que teria acontecido se tivesse a coragem de abordar aquela jovem naquela tarde. Sua mente divagava sobre como teria sido o flerte, o primeiro beijo, o namoro... Sem que se desse conta, seu pensamento já não mais estava no passado, mas no presente. Seu aparamento havia mudado completamente. O ambiente estava tomado por um sentimento diferente, os sofás não estavam mais nus, mas se achavam cobertos por mantas coloridas, os quadros na parede adquiriram novas cores... No sofá maior da sala estava ela, deitada, com um sorriso nos lábios, como se o convidasse para que se deitasse ao seu lado – seu perfume era inebriante. Uma forte buzina na rua o trouxe de volta do quase transe. Prontamente, o apartamento voltou a ser como antes, mais escuro no entanto. Ela já não estava mais ali. O silêncio dos objetos o repreendia, como se quisessem dizer: “Não deveríamos estar aqui, resignadamente daríamos nossos lugares para outros”. Olhou novamente à volta e entendeu o que tudo aquilo significava, e como se pudesse falar com as coisas, disse: “algumas de vocês ainda não sei por que possuo, mas outras só as tenho porque conseguem me dar minhas ausências”. Voltou o olhar para a máquina de fotografar e falou baixinho: “Por isso você é minha melhor amiga, minha caixinha de ausências”. Pensou que se um dia revisse a moça da fotografia, se um dia pudesse ela pudesse romper sua solidão, sua máquina continuaria a guardar seus pedaços mais preciosos de vida...


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A madrasta malvada


Quando eu era pequeno, ganhei uma coleção de livros infantis, que se não me engano, chamava-se “A escada das virtudes” – ou mais ou menos isso. Uma historieta que me recordo é a “Madrasta malvada”. Ela falava de uma menininha que recebeu a ordem da mãe, que havia feito um pote de cookies, para que comesse só um após as refeições. No entanto, a bela garotinha não se agüentava, e entre os períodos da recomendação, comia um ou dois sorrateiramente. A mãe, esperta que era, logo descobriu que o esvaziamento do pote não condizia com a lógica da moderação. Como castigo, sentou sua filha no sofá e começou a contar: “Havia uma garotinha, parecida com a cinderela, a qual a madrasta sempre mandava mexer o leite fresco, ordenhado pela manhã, até que coalhasse. Porém, à medida que o coalho se fazia, vinha a mulher maldosamente e entornava outro tanto de leite. E assim fazia todos os dias da semana, sem se importar com o cansaço da enteada.” Enfurecida, a menina reprovou calorosamente a megera, ao que a mãe respondeu: “Pois é querida, a madrasta é você e a garotinha é seu estômago. Às vezes, ele precisa de um merecido descanso, o que tem como consequência bons hábitos e disciplina.” A criança sorriu e entendeu a lição. Lembro-me que após ter lido a história, deu-me uma vontade de comer cookies quentinhos com queijo minas... Uma boa receita não faria mal agora.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Antologias de um esquecido...


Aos que detestam... Simplesmente
Durante o dia, não maldiga o sol louvando a sombra;
Sem o sol, a sombra nada é;
Sem a luz, a escuridão tudo é;
Assim, não amaldiçoe o sol, apenas ame as árvores...

Não se indigne pela noite porque torna difícil o caminhar;
Sem escuridão, não há lugar para os pequenos brilhos;
Desconhecidas seriam as estrelas da madrugada;
Alegre-se em caminhar entre muitas;
Elas também iluminarão a caminhada...

Aos que esperam a poesia...
Ouça o ritmo, dance ao seu compasso em pisadas duras ou macias;
Veja a dança suave entre a rima e a métrica;
Rejubile-se com a salubridade das regras;
Suba a montanha das eras...
Porém, só habite entre mim se amar as palavras,
Ainda que não sejam poesia, ainda que sejam só poéticas.
Viva em minha casa,
Mesmo que não mais haja mais o ritmo, a rima, a métrica, as regras...
Colocaremos na porta uma placa:
Na casa dos sem poesia moram os que esperam pelos poetas...
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

O nome que diz...


Não diga o que quiser, apenas pronuncie o nome... Deixe que ele escorra da sua boca, involuntariamente... Que seja natural, sobrenaturalmente, com a língua em transe. Permita que ele encontre meus ouvidos... Cante esta palavra que se faz só nossa, que me traz seu rosto, suas mãos, seu cheiro... Sua alma... O nome que é você através do som dos seus lábios. Que seja ouvido ao adormecer como uma canção de ninar, ao acordar como o canto matinal dos pássaros, ao meio-dia como afago no meio da agitação cotidiana... Enquanto... Durante... Sempre... Que meu nome se una ao seu e que ambos se apaixonem, provoquem um ao outro, que queiram fazer amor... Que façam amor... Que nasça disso um filho, um novo nome: Deleite/Eternidade... E ainda que você não esteja mais aqui, mesmo que seja dura a lembrança, não importa, restará algo: o nome... Aquele que infinitamente diz...
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Fragmentos...


Não sei por que chamam os textos minúsculos de fragmentos. Um fragmento é um pedaço. Ora, se um escritor pensou: não quero escrever nada mais, isso é suficiente. Logo, o que escreveu não é um pedaço, é um todo. Há pessoas que não aceitam poucas palavras. Acreditam que boas idéias precisam de muito espaço preenchido por um monte de palavras. É bom lembrar do quanto os ricos pagam por tão pouca comida fina...
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Velho e o Riacho


Num canto solitário de uma floresta distante, vivia um velho eremita. Seu cabelo e sua barba eram longos e brancos, como se fossem neve deslizando sobre as montanhas geladas do norte. Morava em uma aconchegante cabana de bambu e telhado de madeira rústica. O casebre possuía pequenas aberturas que serviam como janelas pelas quais se avistavam os cumes cobertos pelo gelo e pela neblina da madrugada. Uma porta baixa era insuficiente para a estatura do velho que quase não passava por ela. No interior havia três repartições, mas a serventia de cada uma delas não era bem definida. Contudo, o lugar preferido do eremita era uma lareira onde se acomodava nos dias frios. Não eram poucas as horas que permanecia estático contemplando as chamas. Era o altar do devaneio, da poesia, da música, do sonho, do amor, do desamor... Da solidão.

Ao lado da cabana, passava um pequeno riacho com águas tão límpidas que era possível ver os cardumes ao cair da tarde. Para transitar entre suas margens, foi feita uma pequena ponte com o tronco de uma árvore. Além da outra margem passava uma trilha que descia o riacho e sumia por entre a mata fechada. Durante o dia, vários tipos de animais eram vistos correndo em busca de alimento. À noite, sapos e grilos quebravam o silêncio e o velho deixava seu solilóquio para apreciar sua música.

Como nunca havia cruzado a ponte e o mundo do outro lado do riacho era estranho para o velho. Apenas ouvia falar dele pelos viajantes que buscavam informações a respeito das trilhas e acabavam contando várias histórias. Os mais apaixonados contavam das belezas, dos amores, das donzelas, dos sabores... enquanto os desiludidos preferiam falar dos assaltos, dos assassinatos, dos temores... Precavido, o velho sempre optava por permanecer em sua casa. Era mais seguro.

Num determinado dia, os ventos começaram a cantar forte em sua casa. Em suas vozes, melodias de lugares distantes, sonhos de criança que jamais seriam vividos se permanecesse naquele berço eterno. As canções despertaram entidades secretas. Desejo e curiosidade dançaram em seu coração, e ele bateu mais forte. Não cabia em seu peito. Queria saltar e ir para lugares onde bateria por outras coisas. Mas, a entidade do medo queria fazer a brincadeira parar. Exigia que o velho fizesse como os guerreiros helênicos que costumavam oferecer holocaustos a Fobos para que não se apoderasse deles na batalha. Para eles, o temor não era a falta de coragem, mas a sensação de segurança que a acomodação parecia trazer. Ao tentar exorcizar Fobos, o velho se deparou com outra entidade, mais forte que qualquer outra que já havia possuído sua alma: a angústia. É mais fácil lutar contra o medo do que contra a angústia, pois o primeiro é um sentimento em relação a algo que se sabe, enquanto o outro é um sentimento que não remete a nada. È um vazio que preenche grande parte da existência. Mesmo quem se cura do medo da morte, sente angústia. Para o medo existem os psicólogos, para a angústia os filósofos... Esses sabem que isso é um mal crônico e seu anestésico se encontra nas mãos dos poetas.

O desejo e a curiosidade falaram mais alto. Depois das tralhas e malas arrumadas, o velho partiu. Quase não se conteve ao atravessar a ponte. Tudo era novo para cada sentido de seu corpo: o perfume das flores que não existiam perto da cabana, o cantarolar dos pássaros, o gosto das comidas das senhoras taberneiras, a suavidade da pele de uma criança e muitas outras coisas adoráveis. No entanto, o que mais lhe tocava era o crepúsculo nas montanhas altas. Nesta hora, o silêncio tomava conta do universo e ele conseguia ouvir a voz de seu amigo rio que há muito havia crescido: não era mais uma criança/riacho. Suas águas não eram mais tão claras e em sua profundidade guardava segredos que jamais se manifestariam em sua superfície. Isso deixava o homem triste. Pensava que seu amigo estava lhe abandonando. Por outro lado, muitas vezes, o sofrimento ensina que a superfície é o lugar mais seguro, ponderou o velho. Seu amigo sofria com a sujeira dos homens e suas indústrias, com o barulho dos navios, com a morte de seus peixes por causa da poluição... Esse era o momento que o rio mais precisava de seu amigo. É na hora que mais segredos são guardados que mais se precisa de amor. O amor limpa a alma...

Assim, velho e rio seguiram sua viagem juntos. Ambos estavam caminhavam para um só lugar. O tempo era curto e o caminho menor ainda. Muitas coisas já não poderiam ser experimentadas. O mundo era muito grande para um caminho/tempo tão pequeno. Ao longe o velho ouviu um barulho forte. Andando um pouco mais, viu muita água e percebeu que seu amigo ia com mais velocidade em direção àquele lugar: o mar. Mergulhou suas mãos no rio e sentiu que ele estava com medo, e sentiu medo também. Suas lágrimas se misturaram às águas: ambos eram um só. Neste instante, em sua mente vieram as lembranças da floresta, lugar para o qual jamais retornariam. Lembrou-se da cabana, das árvores, dos pássaros de sua infância, do riacho, da ponte, dos viajantes... Não havia mais tempo. O chamado que vinha do mar transformava a lentidão das horas no rápido compasso do anoitecer. A brisa fria e a meia-luz davam o tom da última melodia. E foi assim, no andamento crepuscular da existência, que dois amigos mergulharam no infinito... Ali, o velho se tornou criança e o rio se transformou num limpo riacho, e ambos brincaram novamente...
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Sobre deuses e vovós...*


Reza uma velha lenda – dos tempos de Epimeteu – que os homens, temendo serem esquecidos pelos deuses, buscaram uma forma de seduzi-los para tê-los sempre por perto. Tentaram de tudo, desde orações até as mais estranhas orgias. As orações trouxeram um efeito inverso: os deuses estavam enjoados das mesmas palavras. Das orgias nem quiseram saber. Afinal, é entre as divindades que se encontram as mais belas formas (basta lembrar-se de Platão). No entanto, se estes artifícios já não funcionavam, o que fazer? Tinha que ser algo mais elevado, que não só tocasse os espíritos divinos, mas que os fizessem ter desejos humanos. Mas o que poderia ser isso? Ora, uma velha senhora, pouco entendida das teorias difíceis, porém grandiosa na arte dos prazeres simples, deu a dica: vamos oferecer-lhes a melhor comida! Sabedoria de uma velha sedutora, que na juventude duplicava o desejo dos homens com sua beleza e seus saborosos pratos. Pois não é que deu certo? De tanto gostarem das novas oferendas, os deuses passaram a desejá-las mais. Lembraram-se dos homens, aproximaram-se, apaixonaram e fizeram promessas de amor.
O prazer do gosto não só invade o corpo como faz brotar dos lábios um louvor à condição humana. Tem o poder de reunir no presente o passado das lembranças e o futuro do desejo. Quantos durante as férias não deixam suas casas só para se deliciarem com a comida e as guloseimas da vovó? Coitada destas, dizem alguns, tão ultrapassadas. Enganam-se. Elas é que são sábias: com seus poderes mágicos e seus temperos, reúnem perto de si os mais queridos. Grandes entendidas da metafísica do sabor... “A palavra se fez carne e habitou entre nós...” Não, nas mãos destas velhas “a carne se faz palavra e eles habitam entre mim...” Basta apenas uma mordida e o milagre acontece: imagens, paisagens, pessoas, abraços, sonhos de infância, pedaços esquecidos de nós, tudo nos sabores... Tudo nas mãos daquela anciã...
Hoje, estamos acostumados à comida rápida, microondas, conservas/conversas enlatadas – comida por atacado. O sabor é o mesmo para todos. É uma cultura da aglutinação (prazer coletivo) que faz com que todos tenham os mesmos sonhos/pesadelos, criados pelas grandes vovós multinacionais. Não é mais a boa e velha comida da vovó (que era minha, coisa da infância) que a gente esperava com paciência ao lado do fogão, brincando com os primos. Temo pelos filhos de nossos filhos que nos terão como avós. No tempo deles, os deuses se irão ou darão uma rápida passada numa lanchonete de fast-food. E suas bênçãos, o que será delas? Com certeza, não haverá tantos louvores à condição humana. O que restará? Alguém tem chá de boldo aí? A vovó tem...
*Publicado em "Epimeteu", 2002.
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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Tudo bem, vamos discutir a relação...


Gostaria de pedir licença... poética. Vamos discutir o indiscutível. Eu só te procurei porque não queria te encontrar. Aliás, penso que se jamais tivesses me amado, já terias me amado um dia. O contrário também poderia ser verdade se eu nunca tivesse sido contrariado de que o inverso seria verdadeiro. Mas isso não importa, já que tu sempre te importas com o que invariavelmente me importo. Ora, quero que saibas que se eu te amo é porque nunca amei ninguém, ainda que isto se refira a ti. Aprecio-te como aprecio a nudez de uma mulher que nunca se despiu para que alguém a apreciasse. Não que eu esteja indisposto, posto que normalmente me disponho a estar contigo, ainda que seja indisponivelmente. Algumas vezes, desprezo-te só pelo fato de que a cada dia te prezo mais. Entre nós não há mais nada, embora o nada seja impensável, logo, deve haver muita coisa, pois ainda penso em ti. Devo te falar mais duas coisas: enquanto não te olhava, não sabia por que te olhava tanto e decidi continuar te olhando. Da segunda coisa me esqueci. Não tem problema, ainda tenho que falar uma terceira: acho que nunca me compreendes bem. Porém, decidi tudo, o que se dará por decidido quando souber o que havias decidido antes da minha decisão. Por fim, se me despeço dizendo adeus é porque sei que amanhã te verei brevemente...
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Porque não sou poeta...


Não sou poeta. Poetas são aqueles que sabem usar as regras da métrica, da rima... que cantam com sons sem que haja música. Nisso sou péssimo. Quem quiser aprender algo sobre a estrutura de um soneto, por exemplo, não leia meus textos. Aliás, neles nada se aprende. Os verdadeiros poetas brincam de cupidos léxicos, têm prazer no apaixonamento das palavras. Em seu jogo, estabelece-se toda tensão de uma paixão: o flerte, o receio, o convite, o beijo, o enamoramento, o amor, o ódio, a eternidade... Eternamente a palavra poética, e só é poética a palavra que já foi conjugada, estará unida ao seu par... É por isso que se diz que há o amor segundo Platão, segundo o Apóstolo Paulo, Agostinho de Hipona, Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes... Cada um possui o próprio universo poético. As palavras poéticas não sabem pedir licença e ainda assim todos os sons se silenciam diante delas. Elas dançam no tempo e no espaço, dos pensamentos do poeta aos ouvidos alheios antes mesmo de terem sido ouvidas. Não são desta forma os mensageiros da morte, aqueles que destroem a eternidade, capazes de fazerem ruir as mais belas paixões poéticas. A tais algozes foi dado outro nome: críticos. Eu suas bocas a palavra viva é mastigada, destroçada, sacrificada... São os mesmos que matam, realizam a autópsia e simulam os lamentos fúnebres com seus comparsas... que não são poucos. Mas não é por isso que não sou poeta... Assim diz o palavreiro.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O vendedor de palavras...


Eu gostaria de vender minhas palavras, mas acho que isso não será possível. Isso porque palavras não pertencem a ninguém, estão na boca de todos, nos textos, nos outdoors... De qualquer modo, quando a gente junta palavras, cria aquilo que os outros chamam de ideias. No entanto, ideias são coisas que estão na cabeça de cada um. Moram nela com suas imagens, seus cheiros, seus sabores, suas nostalgias... Porém, tem muita gente que acha que vê ideias. Algumas até pensam que lêem ideias. Acontece mais ou menos assim. Eu junto algumas palavras e aí você as lê. Quando elas penetram e falam mais do que deveriam, você diz: que interessante, esse escritor falou exatamente o que eu penso, como gostaria que essa ideia fosse minha. Por isso existem bons vendedores de palavras, porque conseguem fazer com que seus saquinhos de letras sejam saborosos.

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ao sabor da luz...


O tipo de luz determina a escrita. Existe a luz que se impõe, fazendo-nos olhar para fora. É a luz diurna, solar. Sua característica é mostrar verdade demais. Os escritores que se banham por ela falam de convicções e formulam sentenças categóricas. Sua sina é sempre pensarem que são compreendidos, mas nada conseguiram expressar. Seus interlocutores são seres fotofóbicos, habitantes das profundezas da terra, toupeiras. Por sua vez, a luz das velas opera um movimento inverso. Ela convida o olhar interior. Os escritores que escrevem nessa circunstância são pouco democráticos, um quase silencio. No entanto, assustam-se que outros os tenham ouvido. Não escrevem verdades públicas, mas íntimas. Talvez seja por isso que muitos acreditem neles, e há até aqueles que se transformam em seus clones intelectuais... Por fim, existe a luz do horizonte, aquela que vem, embora não se saiba do que procede. É meia... luz... Está entre o visível e o invisível, a luminosidade e as trevas, o saber e o não saber... Mostra apenas silhuetas, numa cor exclusiva de sabor. Nela, fundem-se a coisa e a sua sombra, a verdade e a mentira, o escritor e a escrita...
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Vamos falar dos desejos...


Não que queiramos ser urubus, vivendo sempre às voltas da putrefação da humanidade. Eles produziram tudo, e nós sonhamos com seus frutos, como se isso nos fizesse árvores. Não que queiramos habitar as ruínas do mundo, nas redondezas continentais da esfericidade da Gaia. Eles construíram em seus vôos noturnos, mas nós sequer somos corujas. Teríamos sido enganados ou apenas preferimos a ilusão de estarmos edificando algo infinitamente elevado? Enquanto não seguramos as rédeas do futuro, não caminhamos adiante. Mas gostamos do cheiro das velharias, enchendo nossos quartos do des/agradável incenso das mentes que nos hipnotizaram. Por isso, somos aves entorpecidas pelo fedor que vem debaixo, e não enaltecidas pelo perfume etéreo de uma inexplorada genialidade. Não que queiramos ser urubus, mas isso é preferível a não ser nada. Comer da vida, produzir a vida, expandir a vida é muito mais difícil do que encontrar a podridão pronta nos aterros da grandiosa sabedoria dos inumeráveis outros. Não que queiramos ser urubus... Mas também não queremos ser ratos. Há alguém se alimentando do nosso esgoto?
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domingo, 7 de fevereiro de 2010

A caixinha...


Aqui estão vocês, possuidores de tudo aquilo que chamam de racionalidade. Agora, abra-se a caixa. Seria melhor que permanecesse fechada. Querem que continue aberta? Podem fechá-la? Ela é pequena demais para dela sair muita coisa, mas é assustadoramente grande para que nela habitem aqueles que por ela entram. Assim, a surpresa não está no que dela sai, e sim naquilo que por ela entra. Não, ela não é uma espécie de buraco negro, que compulsoriamente captura o que está ao seu redor, aprisionando no mistério seus objetos. Os que na caixa entram o fazem porque querem, e saem se quiserem. Resta saber se vão querer sair. Apenas uma dica: enquanto espiam o interior da caixa, vocês devem saber que seus corpos ficam do lado de fora, mas seus pensamentos vagarão por entre as surpreendentes trilhas deste ínfimo, porém infinito mundo. Ouçam a melodia... Ouçam os outros sons que a ela se unem... São eles, todos eles... Antes eram três, depois, quatro, cinco... Ouçam! É por ali que passa a harmonia, pelas sendas que só se mostram à penumbra, e aqueles que por elas caminham têm a sensação crepuscular, embora sempre vejam o nascer de um sol. Ouçam e caminhem... e pensem. Abre-se a caixa... surrealista...
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