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quarta-feira, 3 de março de 2010

A fotografia


A máquina fotográfica estava sobre a mesa. “Por que logo à penumbra? Perguntou-se”. Tudo ao redor estava em profundo silêncio, como se uma letargia tomasse conta da atmosfera. Nada poderia querer ser visto, tampouco, fotografado. Sobre a poltrona de leitura estava ele, carregando sobre si o cansaço de mais um dia. Sua vontade era de se entregar ao sono, mas os olhos insistiam na contemplação da quase escuridão, das silhuetas das coisas, da visão turva do espaço. Lembrou-se da infância, de momentos que só estavam em sua memória por pura nostalgia. Veio à mente aquela viagem, quando antes do alvorecer, seguiam de carro ele e a família no mais absoluto ermo. Recordava-se da música que tocava na rádio feita para acariciar os ouvidos e acalmar a alma, do cheiro do mato ainda molhado pelo sereno, e da ausência amada que preenchia tudo. Queria trazer aquele instante ao presente, segurá-lo sem deixar escapar. Porém, dele só guardava fugidia lembrança. Para ser bem honesto, às vezes temia que parte daquele pensamento se confundisse com algum sonho que tivera no passado muito mais do que se relacionasse com o que de fato se passou.

Nos últimos anos, investira grande parte da sua renda em seu passatempo favorito: fotografia. Sua máquina era uma verdadeira captadora do mundo. Era tão precisa que dava a impressão de se comunicar com o fotógrafo, ressaltando objetos desejados e desfocando os demais, colorindo alvos de acordo com o tom pedido para a circunstância. Cada foto era uma espécie de obra, um olhar proposital e, por isso, congelado. Ao olhar a máquina mais uma vez, perguntou-se: “O que são as coisas? Elas nem sabem que estou aqui, não são parte de mim nem eu delas, por que eu as desejo, por que eu as tenho?” Era estranho que mesmo sabendo que tudo ao redor era inanimado, nada deixasse de insistir em interpelá-lo. “Desgraça de solidão que nunca me deixa só!” Murmurou.

Quanto mais escurecia, mais era possível ouvir uma voz que vinha do fundo das coisas. Recostado à poltrona, não conseguiu evitar notar as fotografias dispostas pela parede na qual o ocre se acinzentava com a proximidade da noite. Havia três fotos emolduradas em madeira escura, uma espécie de tabaco. Numa delas, ao centro, havia uma bela jovem vestindo uma capa de chuva. A monocromia da imagem impedia de definir a cor dos cabelos, do elegante xale, do resto. Percebia-se que a fotografia fora tirada da interior de um café, pois se via o escorrer dos pingos de chuva pela vidraça e a placa que ela sustentava onde estava inscrito algo como “Café Noir”.

Aquele instante emoldurado falava mais do que se poderia imaginar. Eram as últimas gotas de chuva de uma tarde de primavera. O piso da calçada e os paralelepípedos da rua ainda estavam molhados, conservando algumas poças d’água e uma fina enxurrada que escorria até os bueiros. Não estava frio, mas uma brisa fresca de ar úmido penetrava pelas portas e frestas das janelas. Dentro da cafeteria, como sempre, estava ele sozinho numa mesa para quatro. O cheiro do capuchino e das massas se confundia com o perfume que a brisa trazia, dando-lhe uma sensação de conforto que era confirmada pelos tons pastéis da decoração do lugar. Como de costume, a máquina fotográfica permanecia imóvel sobre a mesa. Subitamente, sua atenção deixou as conversas e sorrisos dos demais clientes e se pôs em direção à moça que passava do outro lado da vidraça. Dava sinais de calma ingenuidade e total descompromisso afetivo. Aquela cena o fez desejar desistir de sua vida solitária em prol de um amor por aquela senhorita; ponderou um tempo sobre isso. No entanto, suas supostas convicções o impediram de levantar e ir aonde ela esta. De repente, ela olhou em sua direção. Foi quando ele pegou a máquina, destampou a objetiva, apontou o canhão e acionou o obturador: o exato instante estava capturado. “Era melhor que fosse assim”, pensou, “a maneira como lidamos com eventos que parecem cruciais determinam irrevogavelmente suas consequências”. Para ele bastava aquele olhar, inalterado num quadro em sua parede.

Ainda imerso em devaneios causados pela visão da fotografia, não se conteve, passando a refletir sobre o que teria acontecido se tivesse a coragem de abordar aquela jovem naquela tarde. Sua mente divagava sobre como teria sido o flerte, o primeiro beijo, o namoro... Sem que se desse conta, seu pensamento já não mais estava no passado, mas no presente. Seu aparamento havia mudado completamente. O ambiente estava tomado por um sentimento diferente, os sofás não estavam mais nus, mas se achavam cobertos por mantas coloridas, os quadros na parede adquiriram novas cores... No sofá maior da sala estava ela, deitada, com um sorriso nos lábios, como se o convidasse para que se deitasse ao seu lado – seu perfume era inebriante. Uma forte buzina na rua o trouxe de volta do quase transe. Prontamente, o apartamento voltou a ser como antes, mais escuro no entanto. Ela já não estava mais ali. O silêncio dos objetos o repreendia, como se quisessem dizer: “Não deveríamos estar aqui, resignadamente daríamos nossos lugares para outros”. Olhou novamente à volta e entendeu o que tudo aquilo significava, e como se pudesse falar com as coisas, disse: “algumas de vocês ainda não sei por que possuo, mas outras só as tenho porque conseguem me dar minhas ausências”. Voltou o olhar para a máquina de fotografar e falou baixinho: “Por isso você é minha melhor amiga, minha caixinha de ausências”. Pensou que se um dia revisse a moça da fotografia, se um dia pudesse ela pudesse romper sua solidão, sua máquina continuaria a guardar seus pedaços mais preciosos de vida...


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terça-feira, 2 de março de 2010

A ironia do ser (em pseudo-aforismos)


A certeza... Quem é o dono de uma inteligência inigualável, que interpreta como nada mais o universo, racional por essência, lugar pelo qual falam todas as coisas? Se o leitor respondeu o homem acertou. Sem dúvida, tudo o que o homem pensa de si é verdadeiro. O ser humano não conhece, coloca algo novo na realidade. Por isso, o conhecimento incompleto não procede, pois é o ainda não pensado e o que não foi pensado é o não realizado. É o homem quem realiza a realidade. A natureza é o espelho do homem. Ela não diz quem somos, uma vez que só existe porque dizemos quem e o que ela é. O grande ser que é o homem habita o mundo para criar reflexos de si, pequenas cópias de humanidade.

Um pouco de ceticismo... Heráclito nos falou de certo erotismo do ser. Este não mostra tudo o que poderia revelar. Sempre que desvela, continua a velar o resto de si. Situado num ponto do real, o homem é incapaz de ter a visão do absoluto. A verdade se dá de forma caprichosa, e só se pode torcer por sua boa vontade. Descartes cogitou um gênio maligno, que nos enganaria, fazendo-nos acreditar em grandes engodos – embora, depois, o tenha descartado. E Hume (é só digitar no buscador preferido que você fica sabendo rapidinho quem foi ele)? Soube como ninguém colocar a crença na razão na berlinda... O homem se viu obrigado a repensar sua própria essência para ver se encontraria alguma.

Um palco para a comédia da história... Talvez seja muito mais engraçado que não apenas um, mas bem mais que seis bilhões de indivíduos atuem num imenso palco, pensando que são os protagonistas do universo. Quem sabe o ser não seja dono de um grande senso de humor? Isso se ele existir, diriam os céticos. Se não, a humanidade ainda carece de uma história universal mais engraçada e de um bom comediógrafo disposto a escrevê-la. Hegel e seus discípulos eram muito sérios para tal feito… O que há nos assim chamados destinos seria tão somente constantes tentativas frustradas, muita persistência, pouca caminhada intermitente em função dos incontáveis tropeços, alguma crença nos fins, várias buscas desorientadas. Pouco mais de um século depois de Nietzsche, que não é bem aquele do livro “Quando Nietzsche chorou”, e não encontramos nosso lugar no mundo e a nossa alegria com a Terra é geralmente acompanhada por fragorosos conflitos com a natureza.

Os novos dramaturgos do ateísmo... Os ateus pensam que são responsáveis pelo novo prólogo da história universal - os novos crentes do século XXI. Parece mesmo que o ser tem muito senso de humor.

O pseudo-realista... Os realistas acreditam que são os maiores críticos da dramaturgia do todo. Eles dizem: “Não se encantem com tanta beleza no mundo, ele é, de fato, só feiúra. Não lutem pela vida, pois tudo está fadado à dissolução.” São os literatos da ausência do nexo. E daí que as coisas sejam como esses homens acreditam ser? A maioria de nós quer mesmo um final feliz para o seu “era uma vez”... E muitos gostam da grande ficção.

Os gênios da caixinha... Ficção cara, vendida por pouco preço e lucro quase sempre garantido. Os pais dos eruditos da caixinha; esses sim produzem realidade de muito mau gosto.


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sábado, 27 de fevereiro de 2010

As estações de um escritor


Alguns escritores possuem suas sazões; é isso mesmo que você acabou de ler, sazões. Porém, não se pode esquecer que há leitores que também leem sob uma perspectiva sazonal, seus olhos são sazonais. É no interior da incongruência entre esses momentos, do escritor e seu leitor, que se estabelece o conflito extrínseco ao texto entre essas duas figuras. De um lado, o escritor que quer se expressar de acordo com a estação em que se encontra, do outro, o leitor que exige do texto que seus frutos sejam os específicos de seu tempo.

Dessa maneira, percebe-se o poeta, por exemplo, envolto sob a neblina de um inverno congelante. Seu tom é pálido, pouco intenso, mas com muita densidade, algumas vezes, apenas frio, noutras, melancólico. Algumas imagens que lhe vêm à mente causam acidez, vontade de vômito, sofreguidão, outras o deixam introspectivo, sem sentimento do mundo, sua terra é ele e nada mais. Na outra extremidade está o leitor, vivendo o esplendor do mais puro verão. Seu olhar é solar, iluminador, buscador de belezas, cores, sabores, temperos tropicais... Sua leitura, ao se deparar com a gélida profundidade do texto, indispõe-se, detesta o que está diante de seus olhos. Assim diz ele: “Como assim? Eu, no verão do meu apaixonamento com a existência, exposto a uma alma tão pessimista? Não, isso jamais!” Ora, ele quer sair de si, ir de encontro às coisas, roubar-lhes um pouquinho daquilo que possuem de melhor, enquanto a leitura o coloca em frente ao espelho de seu próprio ser.

Doutro modo vive o escritor primaveril. Sua escrita é somente nascimento. Não aceita ideias preexistentes. Algumas são dadas à luz antes do tempo, sem que tenham passado pelo devido amadurecimento. Mas, são alegres, multicoloridas, com cheiro de novas. São largamente compartilhadas pelo público da mesma estação, o qual as aproveita para voar e dançar com o máximo de ligeireza. No entanto, quando tal texto se acha nas mãos do leitor invernal, causa forte indigestão. Não há nele a austeridade exigida por sua condição. É mundo demais para um coração que preza a solidão.

No ápice de tudo isso, o escritor do verão coloca a folha branca em sua mesa. Ele a vê como a terra, precisando ser iluminada pela luz solar – ele é o sol. Despeja sobre suas páginas uma intensidade quase instintiva. O leitor atento será capaz de sentir um cheiro de suor em cada palavra. No texto, o mundo parece uma grande conciliação entre amor e ódio, paz e guerra, prazer e tédio, harmonia e caos, solução e tensão, vida e morte... Todavia, para alguns leitores, sobretudo, os invernais, nada é detalhe e toda intensidade é mera superficialidade. A vontade de vômito retorna, pois não conseguem ruminar tanta grandeza. São seres setentrionais, quase polares, com nenhuma disposição para os carnavais dos trópicos.

Por fim, embora devessem ser escritores pessimistas, habitam o mundo os escritores da beleza outonal do fenecimento. São verdadeiros pintores das cores tristes, mas que fazem a alma do leitor viajar num profundo devaneio. Subitamente, seus olhos não se encontram na folha. Não são mais as palavras que completam as frases, e sim, a imaginação, o pensamento sem direção. O olhar se perde enquanto as coisas ao redor ficam turvas. O espaço se transforma em horizonte. É como se a alma caminhasse para ele. Os ouvidos se abrem para uma música longínqua, um sussurro que chama. O ar seco, as folhas secas ao chão, as árvores em letargia, o poente em várias avermelhadas, é como se tudo isso tivesse falado ao escritor, cada um com o poder de tocar o leitor. Nesse estado, quem escreve não quer conflitos, quer a serenidade. Quem espera protesto, murmurações, cinismo, sarcasmo, pouca profundidade, intensa densidade, rigor, e outras coisas do tipo, talvez não se sinta bem ao ler uma obra de outono.

No entanto, há escritores que não vivenciam qualquer sazonalidade. Alguns são polares, outros equatoriais, alguns vivem no subterrâneo, outros nas alturas. Não importa, cada um tem algo a dizer se souber o que quer e como fazê-lo (livremente). É por isso, penso eu, que escrever deve ser um respeito a si mesmo e ler deve ser respeitosamente a aceitação do outro, mesmo que para isso seja necessário o conflito. Afinal, sem umas boas briguinhas verbais a literatura seria muito chata.


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A madrasta malvada


Quando eu era pequeno, ganhei uma coleção de livros infantis, que se não me engano, chamava-se “A escada das virtudes” – ou mais ou menos isso. Uma historieta que me recordo é a “Madrasta malvada”. Ela falava de uma menininha que recebeu a ordem da mãe, que havia feito um pote de cookies, para que comesse só um após as refeições. No entanto, a bela garotinha não se agüentava, e entre os períodos da recomendação, comia um ou dois sorrateiramente. A mãe, esperta que era, logo descobriu que o esvaziamento do pote não condizia com a lógica da moderação. Como castigo, sentou sua filha no sofá e começou a contar: “Havia uma garotinha, parecida com a cinderela, a qual a madrasta sempre mandava mexer o leite fresco, ordenhado pela manhã, até que coalhasse. Porém, à medida que o coalho se fazia, vinha a mulher maldosamente e entornava outro tanto de leite. E assim fazia todos os dias da semana, sem se importar com o cansaço da enteada.” Enfurecida, a menina reprovou calorosamente a megera, ao que a mãe respondeu: “Pois é querida, a madrasta é você e a garotinha é seu estômago. Às vezes, ele precisa de um merecido descanso, o que tem como consequência bons hábitos e disciplina.” A criança sorriu e entendeu a lição. Lembro-me que após ter lido a história, deu-me uma vontade de comer cookies quentinhos com queijo minas... Uma boa receita não faria mal agora.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Domingo


Ele estava “endomingado”, diriam uns. Era uma roupa diferente daquela que usava durante a semana. O dia estava claro, mas não fazia muito calor. Caminhava entre os arbustos que ladeavam a escada da igreja. Ninguém parecia notá-lo, aquele mundinho, tão pequeno, parecia ser todo seu. Olhava os insetos que subiam pelas plantas, pegava alguns pelas asas, jogava outros para o alto para ver se voariam...


Subitamente, um som rasgou o barulho da multidão. Ouviu seu nome e uma recomendação: “meu filho, não faça isso, você vai sujar sua roupa, venha para cá!”. Mesmo assim, nenhum olhar alheio o notou. Sua mãe, ao perceber que atitude da criança não havia mudado, esqueceu-se dela. Ali estava ele, em seu mundo, vivenciando cada instante de um breve momento de pura felicidade, sorrindo para as coisas mais minúsculas e insignificantes.


Quem poderia julgar que o menino sabia que era domingo? Mas, talvez, fosse possível imaginar que ele sabia que o domingo era todo dele... Isso se alguém considerasse sua existência.
Enquanto se divertia, os sinos badalaram. Todos deveriam entrar. As brincadeiras deveriam parar, as crianças sossegar, o ar se entristecer. Ali, naquele lugar, por rápidos segundos, o contraste se fez: o menino, solitário, com um rosto alegre, exultante, e os adultos, juntos, compungidos, contristados, pálidos...


Em meio à plena descontração, sentiu um forte solavanco. Sua mãe o puxou pelo braço, com a feição de raiva. “Por que ele não a ouvia?” Deve ter se perguntado aquela senhora. Assim, a solavancos, entraram ambos pelos portais da igreja. Ele, choroso, porém, irreverentemente, sentou-se em um banco. Olhava de um lado para o outro, como se estivesse enfastiado com cada segundo que se estendia, teimando para se tornar interminável.


As canções foram cantadas, as palavras ditas, os olhos fechados... Nada disso parecia importar. Quando tudo parecia perdido, ele olhou para os nós da madeira dos bancos e começou a alisá-los com os dedos. Dava a impressão de que eles eram caminhos, desenhos, lagos, tudo, menos partes de um banco. Sua face se tornou novamente tranqüila, serena, alegre. Entre as pessoas, nada mudou. Todos continuavam sérios, atenciosos, distantes...


Foi assim, passando as mãos entre os nós, fazendo voltas com os dedos, que pela primeira vez outra senhora o notou. Quem a viu não entendeu, mas ela sorriu também. Não, eu não a conhecia. Isso não importa, nunca vou esquecê-la. No entanto, não compartilhei com eles aquela felicidade mútua, aquela alegria de domingo...


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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Fragmentos...


Não sei por que chamam os textos minúsculos de fragmentos. Um fragmento é um pedaço. Ora, se um escritor pensou: não quero escrever nada mais, isso é suficiente. Logo, o que escreveu não é um pedaço, é um todo. Há pessoas que não aceitam poucas palavras. Acreditam que boas idéias precisam de muito espaço preenchido por um monte de palavras. É bom lembrar do quanto os ricos pagam por tão pouca comida fina...
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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Os suspiros de uma democracia...


Acabaram de arquivar a nossa democracia. Todos possuem o direito de não serem condenados se inocentados, mas só em um país sem propósitos alguns têm o direito de não serem investigados se suspeitos. O que ninguém responde é por que chamamos esse mesmo país de democrático. Tolos são aqueles que acham que ainda brincam conosco... A verdade é que eles zombam da nossa cara. Sempre há acordos no final (que nós já deveríamos ter parado de chamar de pizza, dando enormes asas à impunidade). Foi assim algum tempo atrás, é assim hoje e será assim amanhã. Estamos mais tolerantes e eles mais... mais... corruptos? Ora, quem irá condená-los se eles mesmos são a lei? Teoricamente são eles que deveriam dizer o que é certo, e na prática é isso... Eles nos disseram que nada do que eles fazem é sujo suficientemente para estarem errados. Lembrem-se da queda da Bastilha, quando os sonhadores da democracia moderna derrubavam simbolicamente um regime ilegítimo. Quanto tempo esperaremos para jogar por terra o nosso regime ilegítimo? Não adianta um grito contido, um protesto calado, uma ação aprisionada. Para ser sincero, ou não queremos mais pintar nossas caras para não atrapalharmos nossas maquiagens e bronzeados ou já nos enjoamos da conquista democrática. Talvez seja porque gostamos da aventura da reconquista ou porque nos esquecemos dos inumeráveis heróis que lutaram nas ruas para reaverem o poder de todos. Não nos esqueçamos dos tiros, das prisões, das bocas silenciadas, dos quartos vazios, das mães chorosas, dos filhos sem pais, dos diplomas sem donos... Onde estão eles? Pois é, acabaram de arquivá-los com nossa democracia...
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