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quarta-feira, 3 de março de 2010

A fotografia


A máquina fotográfica estava sobre a mesa. “Por que logo à penumbra? Perguntou-se”. Tudo ao redor estava em profundo silêncio, como se uma letargia tomasse conta da atmosfera. Nada poderia querer ser visto, tampouco, fotografado. Sobre a poltrona de leitura estava ele, carregando sobre si o cansaço de mais um dia. Sua vontade era de se entregar ao sono, mas os olhos insistiam na contemplação da quase escuridão, das silhuetas das coisas, da visão turva do espaço. Lembrou-se da infância, de momentos que só estavam em sua memória por pura nostalgia. Veio à mente aquela viagem, quando antes do alvorecer, seguiam de carro ele e a família no mais absoluto ermo. Recordava-se da música que tocava na rádio feita para acariciar os ouvidos e acalmar a alma, do cheiro do mato ainda molhado pelo sereno, e da ausência amada que preenchia tudo. Queria trazer aquele instante ao presente, segurá-lo sem deixar escapar. Porém, dele só guardava fugidia lembrança. Para ser bem honesto, às vezes temia que parte daquele pensamento se confundisse com algum sonho que tivera no passado muito mais do que se relacionasse com o que de fato se passou.

Nos últimos anos, investira grande parte da sua renda em seu passatempo favorito: fotografia. Sua máquina era uma verdadeira captadora do mundo. Era tão precisa que dava a impressão de se comunicar com o fotógrafo, ressaltando objetos desejados e desfocando os demais, colorindo alvos de acordo com o tom pedido para a circunstância. Cada foto era uma espécie de obra, um olhar proposital e, por isso, congelado. Ao olhar a máquina mais uma vez, perguntou-se: “O que são as coisas? Elas nem sabem que estou aqui, não são parte de mim nem eu delas, por que eu as desejo, por que eu as tenho?” Era estranho que mesmo sabendo que tudo ao redor era inanimado, nada deixasse de insistir em interpelá-lo. “Desgraça de solidão que nunca me deixa só!” Murmurou.

Quanto mais escurecia, mais era possível ouvir uma voz que vinha do fundo das coisas. Recostado à poltrona, não conseguiu evitar notar as fotografias dispostas pela parede na qual o ocre se acinzentava com a proximidade da noite. Havia três fotos emolduradas em madeira escura, uma espécie de tabaco. Numa delas, ao centro, havia uma bela jovem vestindo uma capa de chuva. A monocromia da imagem impedia de definir a cor dos cabelos, do elegante xale, do resto. Percebia-se que a fotografia fora tirada da interior de um café, pois se via o escorrer dos pingos de chuva pela vidraça e a placa que ela sustentava onde estava inscrito algo como “Café Noir”.

Aquele instante emoldurado falava mais do que se poderia imaginar. Eram as últimas gotas de chuva de uma tarde de primavera. O piso da calçada e os paralelepípedos da rua ainda estavam molhados, conservando algumas poças d’água e uma fina enxurrada que escorria até os bueiros. Não estava frio, mas uma brisa fresca de ar úmido penetrava pelas portas e frestas das janelas. Dentro da cafeteria, como sempre, estava ele sozinho numa mesa para quatro. O cheiro do capuchino e das massas se confundia com o perfume que a brisa trazia, dando-lhe uma sensação de conforto que era confirmada pelos tons pastéis da decoração do lugar. Como de costume, a máquina fotográfica permanecia imóvel sobre a mesa. Subitamente, sua atenção deixou as conversas e sorrisos dos demais clientes e se pôs em direção à moça que passava do outro lado da vidraça. Dava sinais de calma ingenuidade e total descompromisso afetivo. Aquela cena o fez desejar desistir de sua vida solitária em prol de um amor por aquela senhorita; ponderou um tempo sobre isso. No entanto, suas supostas convicções o impediram de levantar e ir aonde ela esta. De repente, ela olhou em sua direção. Foi quando ele pegou a máquina, destampou a objetiva, apontou o canhão e acionou o obturador: o exato instante estava capturado. “Era melhor que fosse assim”, pensou, “a maneira como lidamos com eventos que parecem cruciais determinam irrevogavelmente suas consequências”. Para ele bastava aquele olhar, inalterado num quadro em sua parede.

Ainda imerso em devaneios causados pela visão da fotografia, não se conteve, passando a refletir sobre o que teria acontecido se tivesse a coragem de abordar aquela jovem naquela tarde. Sua mente divagava sobre como teria sido o flerte, o primeiro beijo, o namoro... Sem que se desse conta, seu pensamento já não mais estava no passado, mas no presente. Seu aparamento havia mudado completamente. O ambiente estava tomado por um sentimento diferente, os sofás não estavam mais nus, mas se achavam cobertos por mantas coloridas, os quadros na parede adquiriram novas cores... No sofá maior da sala estava ela, deitada, com um sorriso nos lábios, como se o convidasse para que se deitasse ao seu lado – seu perfume era inebriante. Uma forte buzina na rua o trouxe de volta do quase transe. Prontamente, o apartamento voltou a ser como antes, mais escuro no entanto. Ela já não estava mais ali. O silêncio dos objetos o repreendia, como se quisessem dizer: “Não deveríamos estar aqui, resignadamente daríamos nossos lugares para outros”. Olhou novamente à volta e entendeu o que tudo aquilo significava, e como se pudesse falar com as coisas, disse: “algumas de vocês ainda não sei por que possuo, mas outras só as tenho porque conseguem me dar minhas ausências”. Voltou o olhar para a máquina de fotografar e falou baixinho: “Por isso você é minha melhor amiga, minha caixinha de ausências”. Pensou que se um dia revisse a moça da fotografia, se um dia pudesse ela pudesse romper sua solidão, sua máquina continuaria a guardar seus pedaços mais preciosos de vida...


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domingo, 28 de fevereiro de 2010

O causo da vingança


Aquele sujeito era um canalha. O tempo que insistiu no casamento era só por causa dos dotes culinários da esposa. Esta sabia muito bem que não competia com a amante do marido em relação à maioria dos outros quesitos. Porém, sua vocação para dona de casa e submissa a impedia de pedir o divórcio. Para piorar sua situação, aquele indivíduo tinha se casado sob o regime de separação universal de bens. A casa foi comprada por ele na época de solteiro, e a mulher não teria direito algum sobre ela.

Como era de se esperar, chegou o dia em que o marido chegou da rua com a notícia: “Quero me divorciar e você tem uma semana para sair da casa.” Engana-se quem pensa que ela se desesperou. Amor mesmo já não existia na relação, era tudo uma inconveniente conveniência. Esperta, utilizou o talento culinário para arquitetar a vingança. Certa manhã, pediu o quase ex-marido para buscar um quilo de peixe não limpo na peixaria, pois queria preparar uma moqueca para o almoço. Peixe em mão, esperou que o homem saísse para encontrar a outra e começou a colocar em prática o plano. Retirou as entranhas do bicho, por sua sorte, cheio de ovas, e cortou a carne em minúsculos cubinhos. Os pedaços a contento, começou a espalhá-los entre os trilhos das cortinas e os alisares das janelas de madeira.

No dia marcado, ela saiu da casa, deixando-a aparentemente limpinha para o agora ex-marido e sua nova dona. Algum tempo depois, o sujeito começou a sentir um cheiro terrível. Pensou que era o esgoto. Chamou os encanadores, que limparam todos os canos, caixa de gordura e de passagem, mas não resolveu o problema do odor. Em seguida, mandou que a nova esposa limpasse sofás, camas, guarda-roupa, geladeira, conferir se algum animal fazia suas necessidades ao redor da moradia. No entanto, nada se encontrou.

Não mais suportando o cheiro, resolveu colocar a casa à venda numa imobiliária. Não era uma mansão, mas era uma construção vistosa, e logo encontrou comprador; ainda mais pelo preço que pediu: só setenta por cento do valor de mercado. O melhor é que deixou todos os móveis e cortinas no imóvel; queria é se ver livre do constrangimento.

Os novos moradores entraram na casa. Era um casal. Não demorou muito para perceberem o fedor de peixe estragado. Para não gastar muito o tempo de leitor, vou resumir: tomaram as mesmas providências do antigo morador. Nada foi resolvido. Ninguém sabia dizer de onde vinha o cheiro. Quanto mais tempo se passava, mais séria a coisa ficava. O casal não recebia mais visitas e quando decidiu vender o imóvel, os possíveis compradores só aceitavam um preço bem abaixo do que realmente valia: trinta por cento de seu valor.

Foi quando a primeira moradora apareceu. “Quanto vocês querem por este imóvel fedorento?” Perguntou. “Pagando mixaria a senhora leva”, responderam os proprietários. Dinheiro na mão dos vendedores, a mulher ficou com a casa e todos os móveis. Na mesma tarde, pegou uma espátula, bons produtos de limpeza e não deixou nem a lembrança do peixe podre nos trilhos das cortinas e nos alisares das janelas. No final da faxina, pensou com seus botões: “Quem é que disse que eu não era a dona dessa casa”.

Detalhes da história: pagou as insignificantes prestações da casa com a pensão do ex-marido, o qual agora vivia num apartamento com três apertadíssimos cômodos e o melhor; era seu vizinho da frente...


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A madrasta malvada


Quando eu era pequeno, ganhei uma coleção de livros infantis, que se não me engano, chamava-se “A escada das virtudes” – ou mais ou menos isso. Uma historieta que me recordo é a “Madrasta malvada”. Ela falava de uma menininha que recebeu a ordem da mãe, que havia feito um pote de cookies, para que comesse só um após as refeições. No entanto, a bela garotinha não se agüentava, e entre os períodos da recomendação, comia um ou dois sorrateiramente. A mãe, esperta que era, logo descobriu que o esvaziamento do pote não condizia com a lógica da moderação. Como castigo, sentou sua filha no sofá e começou a contar: “Havia uma garotinha, parecida com a cinderela, a qual a madrasta sempre mandava mexer o leite fresco, ordenhado pela manhã, até que coalhasse. Porém, à medida que o coalho se fazia, vinha a mulher maldosamente e entornava outro tanto de leite. E assim fazia todos os dias da semana, sem se importar com o cansaço da enteada.” Enfurecida, a menina reprovou calorosamente a megera, ao que a mãe respondeu: “Pois é querida, a madrasta é você e a garotinha é seu estômago. Às vezes, ele precisa de um merecido descanso, o que tem como consequência bons hábitos e disciplina.” A criança sorriu e entendeu a lição. Lembro-me que após ter lido a história, deu-me uma vontade de comer cookies quentinhos com queijo minas... Uma boa receita não faria mal agora.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Domingo


Ele estava “endomingado”, diriam uns. Era uma roupa diferente daquela que usava durante a semana. O dia estava claro, mas não fazia muito calor. Caminhava entre os arbustos que ladeavam a escada da igreja. Ninguém parecia notá-lo, aquele mundinho, tão pequeno, parecia ser todo seu. Olhava os insetos que subiam pelas plantas, pegava alguns pelas asas, jogava outros para o alto para ver se voariam...


Subitamente, um som rasgou o barulho da multidão. Ouviu seu nome e uma recomendação: “meu filho, não faça isso, você vai sujar sua roupa, venha para cá!”. Mesmo assim, nenhum olhar alheio o notou. Sua mãe, ao perceber que atitude da criança não havia mudado, esqueceu-se dela. Ali estava ele, em seu mundo, vivenciando cada instante de um breve momento de pura felicidade, sorrindo para as coisas mais minúsculas e insignificantes.


Quem poderia julgar que o menino sabia que era domingo? Mas, talvez, fosse possível imaginar que ele sabia que o domingo era todo dele... Isso se alguém considerasse sua existência.
Enquanto se divertia, os sinos badalaram. Todos deveriam entrar. As brincadeiras deveriam parar, as crianças sossegar, o ar se entristecer. Ali, naquele lugar, por rápidos segundos, o contraste se fez: o menino, solitário, com um rosto alegre, exultante, e os adultos, juntos, compungidos, contristados, pálidos...


Em meio à plena descontração, sentiu um forte solavanco. Sua mãe o puxou pelo braço, com a feição de raiva. “Por que ele não a ouvia?” Deve ter se perguntado aquela senhora. Assim, a solavancos, entraram ambos pelos portais da igreja. Ele, choroso, porém, irreverentemente, sentou-se em um banco. Olhava de um lado para o outro, como se estivesse enfastiado com cada segundo que se estendia, teimando para se tornar interminável.


As canções foram cantadas, as palavras ditas, os olhos fechados... Nada disso parecia importar. Quando tudo parecia perdido, ele olhou para os nós da madeira dos bancos e começou a alisá-los com os dedos. Dava a impressão de que eles eram caminhos, desenhos, lagos, tudo, menos partes de um banco. Sua face se tornou novamente tranqüila, serena, alegre. Entre as pessoas, nada mudou. Todos continuavam sérios, atenciosos, distantes...


Foi assim, passando as mãos entre os nós, fazendo voltas com os dedos, que pela primeira vez outra senhora o notou. Quem a viu não entendeu, mas ela sorriu também. Não, eu não a conhecia. Isso não importa, nunca vou esquecê-la. No entanto, não compartilhei com eles aquela felicidade mútua, aquela alegria de domingo...


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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A prece...


Ali estava ela, de joelhos... Silenciosa por fora, plena de murmúrios por dentro. Percebia-se isso pelo retesamento do rosto, pelo movimento dos lábios, pelos olhos fechados... Quem a olhava via alguém no mais profundo de si, visitando as entranhas do próprio ser. Uma alma que transcendia aquele espaço.

O tempo parava em torno dela. Todos os objetos em torno pareciam ter se tornado grandes ouvidos. Tudo a contemplava fixamente. Nada, absolutamente nada, ousava falar. Dos sinos, só se ouvia o ressoar das últimas badaladas... Calmamente... Sonoricamente... Decaindo.

Nada era vivo... Nada era fúnebre.

Os outros que entravam no templo, ao olharem aquela figura ajoelhada ao centro, também se calavam, caminhando levemente. Alguns queriam fechar os olhos, mas não conseguiam. Estavam unidos aos objetos. Tornaram-se somente ouvidos... Espírito e divagação.

Pelas janelas, uma fresca brisa penetrou, balançando as folhagens nos vasos, os fil ós, as guirlandas... Foi lentamente até tocar os cabelos dela, os quais se entregaram a um breve movimento. De pronto, uma lágrima, apenas uma, correu dos olhos dela. Nesse instante, o silêncio foi quebrado por um suspiro...

Um rápido suspiro e... Seu rosto estava como antes, numa contrição comovente. Era todo angélico... Só isso bastaria para torná-lo belo.

Todo temor do mundo estava presente. Todo tremor se fazia sentir...

A aura estava intacta, enquanto as cores do céu dançavam ufanosamente, sempre se transformando. Alegria celeste, tristeza bela... Sofrimento gostoso que se continha... Infindável.

Um vazio nostálgico tomou conta da atmosfera. Foi quando os sinos badalaram. Eram seis da tarde. Uma, duas, três... Seis badaladas. Seu tom era solene, como o resto do universo. Era sublime.

A igrejinha ficava no alto daquele morro, destacada pela paisagem. Era reverenciada pelas velhas casinhas.

Era a hora em que suas luzes se acendiam, todas num amarelo profundo. Elas diziam: aqui tem gente assim, com vontade de chorar também. A pequena vila esperava... Tudo esperava que ela saísse por aqueles portais. Todos se preparavam para o cortejo.

Lá dentro, os olhos dela se abriram, levantando-se sem que mirassem um ponto fixo. Sequer olhavam o horizonte. Em sincronia, ela também se levantou. As luzes do templo ainda estavam apagadas. Só as velas iluminavam seu caminho. Era tudo muito pequeno, tudo tão imensamente completo... Era só o infinito.

Andou até o portal e saiu... Desceu a ladeira enquanto todos a observavam pelas janelas. Aos poucos, sua silhueta foi se confundindo com a escuridão noturna. Diante da pálida e plácida admiração alheia, desapareceu... O calor daquela noite era confortável. Foi quando minha mãe me disse: terminou meu bem, agora sim terminou...


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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Resenha do conto “A infância de um chefe” de Jean-Paul Sartre


A edição integral de “Le Mur”, título original de “O muro”, de Jean-Paul Sartre teve sua primeira edição em 1939, na França. A obra é dividida em seis contos – “O muro”, “O quarto”, “Erostrato”, “Intimidade” e “A infância de um chefe” – da qual destacaremos o último deles. A publicação desta obra se dá um ano após o lançamento do principal romance do autor, “A náusea”, que, junto de outros títulos, é parte de uma extensa lista de romances e peças teatrais que figuram ao lado de suas obras filosóficas. A presente resenha faz uso da tradução em português de Alcântara Silveira para a coleção Círculo do Fogo da editora Nova Fronteira.

Deixando de lado a densidade de um texto filosófico, as obras literárias de Sartre possuem a simplicidade e a sedução da linguagem de um literato sem perder a profundidade dos temas abordados. Há uma combinação dos vários elementos que permeiam sua filosofia de forma bastante envolvente. No caso do conto “A infância de um chefe”, classificado por alguns críticos como uma espécie de novela, o autor demonstra seu talento unindo de maneira bem descritiva o momento histórico francês, o perfil dos personagens e algumas idéias que se consolidavam no período entre guerras (1919-1939), entre elas a psicanálise freudiana.

O protagonista de “A infância de um chefe”, Lucien Fleurier, é um adolescente que nasceu pouco antes do início da Primeira Guerra Mundial. Todavia, o leitor pode encontrar alguma dificuldade para situar os momentos de sua vida. Um dos motivos é que Sartre não revela sua idade em nenhum instante. Outro motivo é a ausência de datas, sendo necessário um conhecimento prévio do contexto europeu no ínterim do conto. Um dos indícios contextuais é a referência ao revanchismo francês, sentimento gerado pela perda da região da Alsácia-Lorena para os alemães após a guerra franco-prussiana (1871) e que perdura até a homologação do Tratado de Versalhes (1919). Há, ainda, outro obstáculo para o leitor estrangeiro: a confusão que pode ser feita decorrente da vida escolar dos garotos franceses – um exemplo claro é quando a narrativa alude ao fato de Lucien ter concluído o bacharelado na École Saint-Joseph enquanto, ao que parece, ter completado apenas o ensino fundamental.

Lucien é filho único de um casal burguês, Senhor e Senhora Fleurier, da cidade de Férolles. Desde muito pequeno, conviveu com a bajulação dos empregados de seu pai, principalmente durante o crescimento do poder liberal-capitalista, que posteriormente, grosso modo, será responsável pela Primeira Grande Guerra. A narrativa imerge no mundo infantil explicitando as primeiras dúvidas que buscam afirmar a identidade de um indivíduo diante do mundo, dos outros e de si mesmo. As perguntas, “será que existo?”, “o que sou para os outros?” e “o que é o mundo que me cerca?” estarão presentes o tempo todo.

Fazendo um paralelo com a teoria psicanalítica – bastante explorada no conto – as dúvidas começam pela questão do que a mãe de Lucien realmente significava para ele. Uma passagem a ser enfatizada é a pergunta do vigário sobre quem mais amava: Nosso Senhor ou ela. Lucien ficou confuso em relação ao que realmente sentia. Destarte, após uma reflexão em seu jardim, decidiu que não gostava da mãe. Por outro lado, nas palavras do autor “Embora sem se sentir culpado, recobrou seus carinhos, porque pensava que devia fingir sempre amar os pais, senão seria um menino ruim”. Em seguida, empenha-se em descobrir de que são feitos os objetos a sua volta e o que representam as pessoas que o cercam. Conclui que os nomes não são nada, ou pelo menos, só são alguma coisa se significarem algo para quem os diz. Ora, ainda que isso pareça prematuro para uma criança de cinco ou seis anos, Sartre foi bastante feliz ao lidar com a curiosidade infantil que, aos poucos, vai delimitando seu mundo.

Em uma visita à fábrica de seu pai, Lucien decide que também será um chefe. Este projeto pueril permeará toda sua adolescência. Observa-se um constante enfrentamento diante de outras decisões e posturas com um único propósito: saber se essas decisões e posturas o tornarão um chefe tão bem sucedido e certo de seu papel como o Senhor Fleurier. Um exemplo claro é quando, no fim da adolescência, evita ter um caso com uma empregada de seus pais, Berthe, por considerar que isso mancharia sua honra na cidade onde se tornaria patrão. Ora, isso é mais um dos temas demasiadamente discutidos na filosofia sartreana, o projeto como a busca existencial do indivíduo e que realiza a liberdade, parte fundamental da estrutura ontológica do ser humano.

Ao entrar na escola, entre seis e sete anos, Lucien terá uma experiência muito trabalhada por Sartre em suas obras filosóficas: o olhar do outro. Dentro do banheiro acha engraçada a inscrição que chamava seu colega de classe, Barataud, de percevejo por ser pequenino. No entanto, ali também havia outra que o chamava de grande aspargo por ser bem maior que o resto de seus colegas. A partir desse dia, sentia-se incomodado pensando que todos o observavam, até nos momentos mais íntimos. Na classe, queria mudar de lugar para que os outros não o vissem pelas costas – ângulo que não se pode ter posse. Aspargo será o adjetivo que assumirá durante toda sua adolescência.

Ao completar o bacharelado, a família Fleurier vai para Paris, cidade não muito agradável para o garoto. Ali, após a visita de seu primo Riri com quem convivera durante a infância e que achava pouco inteligente, Lucien teve uma nova certeza: a de que não existia. De acordo com a própria narrativa ele pergunta: “Quem sou eu? Eu sento na escrivaninha, olho o caderno. Chamo-me Lucien, mas isso não é senão um nome (...) Não serei nunca um chefe. Pensou com angústia: ‘Mas que vou ser?’ (...) ‘Quem sou eu?’ (...) Olhou ao longe (...) Lucien estremeceu e suas mãos tremeram: ‘É isso’, pensou, ‘é isso. Tenho certeza: eu não existo’.” Desta maneira, acreditava possuir um segredo que o fazia olhar com superioridade os outros – eles também não existiam. Em suas palavras, “o mundo era uma comédia sem atores”.

È interessante a maneira como Sartre brinca com a idéia cartesiana da certeza da existência. Em uma conversa com Babouin, professor de filosofia, Lucien pergunta se “seria possível sustentar que não existimos” ao que seu professor responde: “Coghito, ergo çoum[1]. O senhor existe, pois duvida da sua existência”. É sabido que Sartre argumenta que são os outros que “me conferem a existência”.

Retornado a Férolles, Lucien observa que muita coisa está diferente. Com a morte do funcionário mais devoto da fábrica, todos na cidade haviam perdido grande parte do respeito por seu pai. Ao que parece, Sartre quer se remeter ao descrédito que o poder burguês logra e o crescimento das esquerdas por toda Europa durante a década de 20. O garoto, já entre dezesseis ou dezessete anos, resolve que o suicídio era a maneira mais legítima para acabar com o dilema de sua não-existência – o próprio sentimento do nada. Não era somente a angústia que o levava a pensar assim, mas, sobretudo, o desejo de servir como mártir. Ao invés de um tratado sobre o nada, sua morte. Todos refletiriam muito mais.

Ao inserir o personagem de Berliac, um colega de Lucien durante os estudos preparatórios, a narrativa aprofunda na discussão com a teoria psicanalítica freudiana dos complexos. Esses últimos dariam uma fundamentação à existência vazia de significados. Sabendo o que originava as ações inconscientes, o indivíduo aceitaria a irresponsabilidade de seu caráter e atitudes geradas por ele. É o que sentiu Lucien acreditando que isso justificaria sua existência, mas os atos estranhos de seu amigo – como o de levantar a roupa de sua mãe enquanto dormia – o levou a afirmar: “é bonito ter complexos, mas é preciso saber resolvê-los em tempo”.

A amizade com Berliac é o gancho para uma das figuras mais interessantes do conto, Bergère, um pintor e escultor surrealista que se baseava nas idéias de Freud para compor suas obras. Foi a ele que Lucien confessou mais profundamente suas dúvidas existenciais, como o desejo de suicídio. O conforto surge no momento que tudo isso é classificado como um desajustamento, componente necessário para o brilhantismo e criatividade - como o fora para Rimbaud, escritor e poeta francês bastante prematuro que deixou de produzir aos 21 anos e se tornou guerrilheiro morrendo aos 32. No entanto, a aproximação de Bergère revela outra coisa, um desejo homossexual de possuir Lucien, que acaba cedendo em uma viagem. Por esse motivo, este sente sobre si todo o peso da moral e se considera um pederasta. Buscando racionalizar o acontecimento, Lucien passa a agir de uma forma que avalia ser moralmente correta, afinal, não esperava que os funcionários de seu pai aceitassem um homossexual como seu chefe.

Em 1939, Sartre ainda não tinha consciência do que o anti-semitismo seria responsável nos próximos seis anos. No entanto, antecipa suas conseqüências através de reflexões trazidas pelo próprio texto. Ao entrar num grupo político nacionalista e racista convidado por André Lemordant, um colega de escola, Lucien torna-se um de seus principais oradores e militante. Pensava que uma luta política preencheria o vazio deixado pela descrença nos complexos freudianos. Além disso, essa luta reavivava seu espírito de liderança e sua moralidade abalada por sua relação com Bergère. Suas práticas anti-semitas podem ser observadas em dois momentos: o primeiro é quando espanca um judeu na Rue Saint-André-des-Arts com seus colegas e o segundo num encontro com Guigard e Maud, sua irmã, quando recusa a apertar a mão de outro judeu. O restante da narrativa seguirá no sentido de esclarecer que a posição assumida por Lucien diante desse novo grupo lhe conferirá a certeza de que estava preparado para ser o grande chefe que sonhava desde pequeno.

O conto “A infância de um chefe” é um texto atraente que leva a várias reflexões. Mas o leitor que espera reconhecer nele elementos da filosofia sartreana de maneira imediata se sentirá frustrado. Embora esses elementos existam implicitamente no texto, somente um conhecimento prévio do conjunto filosófico de Sartre e dos inúmeros debates estabelecidos com a sociedade de sua época poderá trazer-lhes à luz.


[1] Transliteração fonética francesa do latim ‘Cogito ergo sum’ (Nota do próprio Sartre).


Texto publicado em 2005.


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